UTF-8" /> Sustentabilidade, Água, Liderança - Casa de PalestrasCasa de Palestras

Palestra-Patrícia-Furtado

Mais que uma interface, uma verdadeira conexão.

 

A palavra “sustentabilidade” já caiu no uso comum há um bom tempo. Tem origem no termo latim sustentare, que significa sustentar, defender, favorecer, conservar, cuidar. Hoje, qualquer instituição pública ou privada que não trabalhe em prol da “sustentabilidade” ou do “desenvolvimento sustentável” é considerada politicamente incorreta. Mas poucas pessoas sabem quando esses dois termos começaram a ser mais utilizados e por quê.

O termo “sustentabilidade”, como compreendido atualmente, começa a ser usado em 1972, durante a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano realizada em Estocolmo, após inúmeras discussões sobre o avanço da degradação ambiental e da poluição em nível global. Em 1987, a Comissão Mundial sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento elabora e publica um documento intitulado Our Common Future, “Nosso Futuro Comum”, também conhecido como Relatório de Brundtland, no qual se lê que “o desenvolvimento sustentável é aquele que satisfaz as necessidades presentes, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de suprir suas próprias necessidades”. O termo é consolidado definitivamente durante a Conferência sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento realizada no Rio de Janeiro em 1992, a ECO92. 

Outras Conferências, Cúpulas, Agendas e Planos de Ação seguem cimentando ambos os termos, que passam a ser incorporados no vocabulário cotidiano de várias organizações que se mostram preocupadas com temáticas socioambientais. Os conceitos ganham ainda mais importância quando as empresas começam a enxergar as vantagens competitivas resultantes dos investimentos nessa área: basta pensar no crescente mercado das  “energias renováveis”. Sim, é possível aliar boas ações ligadas ao meio ambiente e à sociedade, um bom marketing, criação de novos mercados e retorno financeiro. Isso pode alavancar, inclusive, o valor da empresa na bolsa de valores, como acontece com o índice Dow Jones de Sustentabilidade.

Mas ainda é preciso criar outras redes de colaboração e ação conjunta para alcançar resultados mais eficazes. Em 2000, o então Secretário-Geral das Nações Unidas, Kofi Annan, lança uma chamada para as empresas alinharem suas estratégias com o objetivo de enfrentar os desafios que colocam em risco o crescimento sustentável do planeta e de seus próprios negócios. O ponto de partida são 10 princípios universais derivados de Declarações e Convenções nas seguintes áreas: Direitos Humanos, Trabalho, Meio Ambiente e Anticorrupção. Para monitorar e revelar ações e impactos gerados por cada organização, são criados diversos indicadores e produzidos os primeiros Relatórios de Sustentabilidade. A Governança é colocada ao centro desse processo junto da Responsabilidade Social Corporativa como elemento estratégico de gestão e geração de valor. Ainda em 2000, são definidos os 8 Objetivos do Desenvolvimento do Milênio (ODMs), as primeiras diretrizes que visam garantir à sociedade uma vida com mais dignidade até 2015. Os desafios crescem e, neste mesmo ano, as Nações Unidas trabalham junto dos governos e da sociedade para estabelecer metas ainda mais audaciosas, aprovadas pelos 193 países-membros: nascem então os 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, ou seja,  a Agenda 2030, um Plano de Ação com 169 metas que ainda vê na erradicação da pobreza extrema o maior desafio global, mas trabalhando-o em articulação com as 3 dimensões do desenvolvimento sustentável: econômica, social e ambiental.

A Rede Brasil do Pacto Global Brasil é criada em 2003 e está vinculada ao Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). Hoje, é a terceira maior do mundo, com mais de 800 membros. O número das empresas signatárias aumenta em 70% após a divulgação da Agenda 2030. Estamos em 2020, mas ainda há muito a ser feito, no Brasil e no mundo. As emergências climáticas colocam territórios, comunidades e negócios em risco. É cada vez mais difícil fazer previsões de catástrofes naturais, recuperação de recursos naturais e, até mesmo, do que, nesse contexto mais instável do que nunca, pode se tornar um bom negócio. 

Num mundo em constante transformação, onde vivemos bombardeados com informações e conselhos de todo tipo e no qual a capacidade de se adaptar ao imprevisto é a única chance de sobrevivência, pessoal e profissional, a afirmação do internacionalmente conhecido filósofo polonês Zygmunt Bauman nos alcança como flecha certeira: “A mudança é a única coisa permanente e a incerteza é a única certeza”. O conceito por ele criado de modernidade ou vida “líquida” passa a ser usado para definir a era do efêmero, do descartável e da total incerteza na qual nossa sociedade de consumo está inserida. A metáfora não deixa de ser usada nem mesmo para falar das relações –  também descartáveis – do mundo atual: “são tão líquidas que escorrem por entre os nossos dedos, assim como a água”. 

Diante dos desafios para a digna sobrevivência dos seres humanos em um planeta que precisa, urgentemente, se regenerar, temos que aprender a ser flexíveis para nos tornarmos reais agentes de mudança. Já dizia o famoso artista e lutador chinês Bruce Lee: “Be water, my friend! (Seja água, meu amigo!)”, quando nos aconselhava a esvaziar a mente e a fluir como a água. Certamente havia lido os textos do sábio mestre chinês Lao Tsé em seu Tao Te King, mais conhecido como “O Livro do Caminho e da Virtude”. 

Mas como interpretar o convite de Bruce Lee nos dias de hoje, em meio a uma terrível crise hídrica que afeta todos os povos do planeta? Como ser o que falta, se não em quantidade, em qualidade? Como pensar a água poeticamente e metaforicamente, inspirados por Bauman, Lee e Lao Tsé, quando guerras e imigrações são causadas pela escassez do “ouro azul” sem o qual nenhuma economia avança, nenhum bem de consumo é produzido e nenhuma forma de vida nasce ou se mantém? Não por acaso a água vem sendo colocada ao centro de todos os ODSs, estando presente nas mais diversas ações da Agenda 2030. 

A água não é um recurso fundamental para a erradicação da pobreza (ODS 1)? Como pensar em Fome Zero (ODS 2) sem consumir água? É possível falar em saúde e bem-estar (ODS 3) ingerindo água contaminada e contraindo, eventualmente, doenças de veiculação hídrica? Como ter acesso a uma educação de qualidade (ODS 4) sem uma boa infraestrutura local de água e saneamento (ODS 6)? É possível pensar em emprego digno e crescimento econômico (ODS 8), em Indústria, Inovação e Infraestrutura (ODS 9) sem a presença da água em todos os processos que geram os bens de produção que nós consumimos? Como termos cidades e comunidades sustentáveis (ODS 11) sem uma estrutura inteligente de tratamento de água e esgoto? De que modo é possível combater as alterações climáticas (ODS 13) se não pensarmos na vida na água (ODS 14), considerando que o Oceano é o maior produtor de oxigênio do planeta e um importante regulador do nosso clima? Existe vida sobre a Terra (ODS 15) sem vida na água? Essas são somente algumas das perguntas que nos indicam que a água está, sim, ao centro de tudo. 

O poeta francês Paul Claudel já dizia que a água é o olho da Terra. Eu também a considero uma lente através da qual ler o mundo. Ver o estado das nossas águas naturais, hoje, revela o quanto esse organismo vivo foi maltratado pela exploração predatória e indevida de seus recursos. Ver o estado das nossas águas tratadas não é diferente. Sabemos dos imensos desafios enfrentados pelas empresas de água e saneamento para tratar os pesados efluentes que saem de nossas casas e indústrias, dos campos de cultivo agrícola e dos pastos que cobrem boa parte de nosso território: microplásticos, hormônios, os mais variados compostos químicos, contaminação microbiológica, metais pesados e outros poluentes tóxicos, só para citar alguns. E o que estamos fazendo com nossa saúde, com as águas que preenchem nossas células e circulam em nosso corpo? Não são as mesmas águas, no final das contas? Tudo isso retorna ao nosso corpo através do ar que respiramos, dos líquidos que bebemos e de tudo mais que ingerimos. Integramos o ciclo hídrico junto da vegetação e dos outros animais. Não fazemos parte da natureza. Nós somos natureza. Somos também habitados e atravessados por muitos rios e oceanos. Somos água. 

Somos água? Penso novamente em Bruce Lee. Penso no papel dos que governam países, empresas e instituições capazes de mudar o rumo das coisas, de regenerar o planeta, culturas, relações e pessoas. Penso na diferença entre os que chefiam e os que lideram. Entre os que se impõem de forma autoritária, pelo medo ou através da hierarquia e os que inspiram pelo exemplo, pela coerência, porque são empáticos, têm escuta e colocam as pessoas em primeiro lugar. Líderes são humildes, admitem que erram e que não sabem tudo. São abertos e acolhem. “Estão no flow”, no fluxo, segundo o psicólogo húngaro Mihaly Csikszentmihalyi: isso acontece com certos executivos de alta performance, os que acreditam que sucesso é contribuir para fazer do mundo um lugar melhor para se viver. 

A água acolhe tudo e todos, sem distinção de raça, gênero, religião, credo ou cor. É humilde, ocupa os lugares mais baixos ao ceder à gravidade da Terra. Por não ter forma, adapta-se aos espaços oferecidos e adquire novos contornos. Entra pelas frestas e vai preenchendo as cavidades que se abrem diante de si. Sua natureza não lhe faz bater de frente: ela contorna os obstáculos com harmonia, no fluxo. Não resiste às mudanças, é flexível, tanto que ao se adaptar às novas temperaturas, muda de estado. A seu modo, tem escuta, reage ritmicamente a sons, ventos e forças que provocam nela um movimento que não é seu. Não se impõe, simplesmente, flui. O que isso faz você pensar?

Para ser um verdadeiro líder no mundo de hoje, diante das ameaças e desafios citados anteriormente, sugiro começar pela água: 

  • construindo uma nova cultura da água;
  • cuidando da água;
  • sendo água. 

“Be water, my friend!”.

Patrícia Furtado de Mendonça é Mestre em Teatro pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO) e Bacharel em “Artes, Música e Espetáculo” pela Faculdade de Letras e Filosofia da Universidade de Bolonha, Itália. Trabalha com “comunicação” em vários níveis:

  • Atriz/Performer; Professora/Palestrante/ Pesquisadora;
  • Tradutora/ Intérprete; Consultora e Coordenadora de Projetos.

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